DESTAQUES DO OCIOSO

quarta-feira, 12 de março de 2008

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

terça-feira, 4 de março de 2008

Até Quando?!

E desde aqueles anos, nada mudou:
A vida continua me levando.
Onde o mundo parece estar errado,
Porque a verdade ninguém me revelou!

Não quero responder com tuas palavras...
Peço só que eu seja breve como uma brisa.
Ou que isso passe feito um sonho ruim,
E que seja aceito por nossas almas.

A verdade que te digo, me assombra,
Como a morte que destrói uma esperança!
E aparenta como um homem e sua espada,
Que feriu na ponta seis crianças!

A maldade das pessoas, me comove,
O descaso com os outros me revolta,
Não consigo respirar aliviado,
A sede de justiça é o que me move.

A vida tem sete lados,
E as pessoas sete faces.
Não se deixe levar por aparências,
Pois, na tribo do seus amigos:
Será você... o devorado.

E desde aqueles anos nada mudou,
A vida continua me levando...
Até quando?!

Maurício Heloísio Jr.